No Mês da Mulher, quem somos além da maternidade?

A reconstrução da identidade: o direito de existir para além do cuidado

05|03|2026

- Alterado em 12|03|2026

Por Jo Melo

A partir do momento em que uma mulher se torna mãe, a sociedade a coloca em um pedestal imaginário de santidade e, ao mesmo tempo, vigia cada passo para julgá-la. A romantização da maternidade constrói uma expectativa para a sociedade de que a vida de uma mulher-mãe deve ser integralmente dedicada aos filhos.

Quem é mãe sabe que nada continua igual a como antes. O corpo muda, o sono desaparece, as prioridades se reorganizam, a rotina é diferente. A maternidade não é um “dom místico” nem instintivo, é convivência, adaptação e aprendizado.

Enquanto a mulher aprende a cuidar de um bebê, quase ninguém aprende a cuidar dela.

No puerpério, todos querem ver o bebê, mas ninguém pergunta como está a mãe. Além disso, o cansaço é tratado como obrigação, a dor é relativizada e a solidão é naturalizada.

O preço da maternidade no mercado de trabalho

Quando termina a licença-maternidade, a realidade se impõe com mais dureza. Segundo pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), cerca de 50% das mulheres que tiram licença-maternidade no Brasil estão fora do mercado de trabalho até um ano depois do início desse período. Seja por demissão, saída voluntária ou abandono formal da carreira profissional. Isso não é um caso isolado, mas um padrão.

Os desafios não se restringem ao Brasil. Segundo o jornal The Guardian, em países como a Inglaterra, por exemplo, mães perdem renda significativa ao longo dos anos após o nascimento do primeiro filho, com quedas de renda de mais de 40% em média cinco anos depois.

Em muitos contextos globais, esse fenômeno é chamado de “penalidade da maternidade”: a carreira e os ganhos financeiros das mulheres são reduzidos exclusivamente em função da maternidade, não pelo desempenho profissional em si.

Não é à toa que muitas mães buscam alternativas profissionais fora das estruturas tradicionais. Não se trata apenas de empreendedorismo por vocação, mas de adaptação a um mercado que ainda não acolhe plenamente a maternidade, ou seja, a lógica produtivista continua operando como se cuidado fosse um obstáculo e não parte da vida social.

Estigma e solidão

Mas não para por aí: os relacionamentos também mudam. Mulheres solteiras frequentemente deixam de ser vistas como parceiras possíveis e passam a ser reduzidas à condição de mãe, daquela que “quer dar um pai pro filho”, e até mesmo são feticihizadas e vistas somente para sexo. E isso é só a ponta do iceberg.

Esse processo vai apagando a mulher que existia antes, que vai sendo deslocada para o segundo plano. Seus desejos são considerados egoísmo, seus projetos são adiados, o tempo deixa de ser dela. E, por um milagre e uma rede de apoio, quando tem algum tempo para sair, perguntam: “com quem seu filho está?”, como se ela não tivesse direito de estar em qualquer lugar sozinha ou com amigas.

Na periferia, essa conta é ainda mais pesada. A mulher-mãe muitas vezes já enfrenta jornada tripla: trabalho formal ou informal, cuidado da casa e dos filhos, deslocamentos longos, ausência de rede de apoio. A creche não dá conta, o transporte falha, o salário é insuficiente…

O Estado se ausenta e a cobrança continua. Nos chamam de guerreiras enquanto negam o básico para nós e nossos filhos. 

Existir além de maternar

“Mas, afinal, quem é ela, além de mãe?” Quem nunca se perguntou quem é depois da maternidade que atire a primeira pedra. Essa pergunta não é ingratidão, nem muito menos indica falta de amor pelos filhos, mas é uma tentativa de reconstrução da identidade. A maternidade transforma e muda a vida, é claro, mas a transformação não deveria significar anulação. É isso que a sociedade custa a entender e mudar nesse padrão.

Continuamos sendo mulheres com desejos, ambições, criatividade, sexualidade e direito de escolha, a diferença agora é que somos mães. Então, sim, é diferente, mas não significa que não temos mais a capacidade de fazer.

Na literatura e na produção intelectual, o movimento se repete. Escritoras mães muitas vezes são direcionadas a escrever apenas sobre maternidade, como se sua experiência estivesse restrita a esse tema, como se não houvesse espaço para outras narrativas, outras inquietações, outras perspectivas. E se são aceitas, são colocadas no papel romântico da maternidade, com frases como “que lindo”, sendo que a vivência de muitas de nós é de luta, busca pelo reconhecimento e por  rede de apoio. Como se o nosso pensamento crítico fosse totalmente anulado com a maternidade. 

Perguntas que a sociedade precisa encarar

Mas é importante ter em mente: ser vista como mulher, ser vista como uma pessoa, não é querer deixar de ser mãe, mas recusar que essa seja a única identidade possível.

Além de mãe, eu sou mulher e é assim que devemos ser vistas, independentemente dos nossos filhos. Nos colocar à mercê do mundo como se todo o problema fosse inteiramente nosso (quem pariu Mateus que o balance), deveria deixar de ser mais parte do discurso enraizado e preconceituoso da sociedade.

Além de mãe, muitas são cozinheiras, manicures, chefs de cozinha, cuidadoras, gestoras, professoras, bailarinas, jornalistas, pintoras, artistas, escritoras e profissionais de muitas outras profissões, ou têm hobbies ou simplesmente exercem o “ser” a si mesmas.

O Mês da Mulher também é das mães, não queremos e sequer devemos ser lembradas em datas que dizem respeito à infância e à maternidade, porque somos além!

Essa culpa não é nossa, mas as perguntas que ficam são:

Quem você era antes da maternidade?

Quem você é agora?

O que ainda deseja ser?

Quem é você, além de mãe?

A sociedade precisa de uma vez por todas abrir espaço para que a gente possa ser quem somos, sem romantização, e entender que, além de mães, somos mulheres que lutam contra o racismo, o sexismo e o machismo, para que nossos filhos sobrevivam em meio ao racismo e tenham uma vida melhor que a nossa.

Jo Melo É mãe, editora e fundadora do Instituto Mães que Escrevem. Foi diagnosticada com autismo e TDAH na idade adulta. Escreveu e publicou os livros Os Cinco Sentidos e Hipérboles, é organizadora da coletânea Escrevivências Maternas e participa de diversas antologias. @jomelo.escritora

Os artigos publicados pelas colunistas são de responsabilidade exclusiva das autoras e não representam necessariamente as ideias ou opiniões do Nós, mulheres da periferia.

Larissa Larc é jornalista e autora dos livros "Tálamo" e "Vem Cá: Vamos Conversar Sobre a Saúde Sexual de Lésbicas e Bissexuais". Colaborou com reportagens para Yahoo, Nova Escola, Agência Mural de Jornalismo das Periferias e Ponte Jornalismo.

Os artigos publicados pelas colunistas são de responsabilidade exclusiva das autoras e não representam necessariamente as ideias ou opiniões do Nós, mulheres da periferia.